Lá vem ele chegando... O rei da hipocrisia.
Ah, podem me chamar de amargo, despeitado, sem sentimento, enfim... Adjetivem! Dezembro se resume em um circo no qual o espetáculo principal é a falsidade. Meu Deus, será que eu estou tão distante deste mundo que se encontra a minha volta?
Me aflinge ver todas essas luzes sendo colocadas nas varandas das casas, nas árovores, nos prédios... Começo a ver a carinha do velhinho que dá presentes, enfim... O clima está chegando. E com ele, sempre vem aquele gostinho de não sei o que que escorre pelo canto da minha boca. Participo de confraternizações, troco presentes, sorrisos, abraços, beijos, álcool... Aquelas frases tão verdadeiras como uma nota de três reais ditas a todas as pessoas ao seu redor. Até árvore de natal eu vou montar este ano.
Andei me perguntando o porquê. Será que é pra me sentir um pouco menos melancólico? Pra entrar no clima? Seguir a modinha de quase todos?
Realmente eu não sei porque farei isso este ano. Mas ela já está lá, pronta para ser montada. Esperando sua hora chegar e, com seus ramos servir de abrigo para todos aqueles enfeites que compramos ou temos guardados ano após ano. Sejam bonequinhos, papais noéis, frases, bolas grandes ou pequenas coloridas e as luzes do natal.
Com certeza eu acenderei as luzes e me pegarei várias e várias vezes admirando-as como quando fazia ainda na infância. Ficava tão ansioso para ver a "árvore" montada. Perguntava aos meus pais: Já está na hora da gente ligar? Vamos ligar já! Já está anoitecendo... E ficava ali por longos minutos observando aquele "espetáculo" imaginando mil coisas sobre papai noel...
Falando em todas essas coisas, acabei me lembrando porque voltarei a montar uma árvore e acender as luzes de natal... No fundo, no fundo, espero ter de volta a luz da minha infância para dissipar sabe-se lá o quê, que se instalou em minha vida.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A triste pena de Calipso
Que em tua ilha chegou outro visitante!
Mas lembra-te de tua pena que nunca mudará,
Também ele, em breve, será uma paixão distante.
Cuida, Calipso,
Dele com todo teu cuidado.
Oferece-lhe tudo, até a imortalidade.
E novamente serás passado abandonado.
Ama, Calipso.
Olha como ele é tudo que esperaste.
A resposta para teus momentos de solidão,
Tanto tempo sozinha... quanto desgaste!
Pede, Calipso.
Implora-lhe que permaneça.
Que olvide todo o resto de sua vida,
De sua família e passado se esqueça.
Deixa, Calipso...
Ele não ficará como nenhum outro ficou.
Tantos passaram e nenhum permanece,
Que ao menos diga: “Em paz me vou!”
Acena, Calipso.
Despede-te de mais um que se vai.
Abençoa-o para que em seu destino chegue,
Que ao menos ele tenha o que não tens: Paz.
Sofre, Calipso!
Senta, pena e chora...
Diferente de qualquer mortal em teus barcos,
Parece que nenhuma das três Parcas te adora.
sábado, 25 de setembro de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
O ressurgir da Fênix
(Dragão e Fênix - Jun Lin)
Tu estavas morta, não estavas?
Tinha certeza porque assim te vi!
Como podes retornar à vida?
Ai de mim, que perto te quis...
Lembro que em fogo
Te havias afogado.
E agora assim levantas,
Como despertando de sono pacato.
Fênix, sacode as penas e olha para a luz,
Tudo te saúda com um bom dia!
Canta para encher o ar de leveza,
Traze de volta toda a alegria!
As chamas que fizeram de ti cinzas
Parecem que foram apenas ilusão.
Do ovo do ninho carbonizado
Surgiu nova vida, então?
Mas surgiu realmente nova vida?
Ou será apenas repetição da anterior?
Liberdade do passado perdido
Ou manutenção no mesmo estupor?
Não sei as respostas.
Apenas te espero, nova Fênix.
Aguardo debruçado na janela
Teu vôo e canto, que de êxtase me enches.
Marcadores:
amor,
chamado,
ressureição
domingo, 15 de agosto de 2010
O olhar da Medusa
Vejam.
Todos temem, alguns invejam,
Mas ninguém entende
Como pode ser doloroso
Ter os olhos da Medusa,
Desgraçada vidente.
A dor de não pode olhar
Nunca o ser amado,
Desviar sempre dele seus olhos
Sob pena de pedra eterna
O deixar transformado.
Então foge, Medusa, foge para longe,
Para longe do teu amado.
Esconde-te no meio de ruínas desertas,
Onde somente rochas
Te tem acompanhado.
Desvia teu olhar
De agora em diante
De todas as coisas vivas
Ou terás apenas essas companhias
Pétreas infinitas como os diamantes.
Que triste sina, preferiria
Ser cega, demente ou morta!
Seja lá o que fosse,
Qualquer outra situação
À essa visão torta.
Mas a vida é assim
E o destino não é o que se escolhe.
Sentada sozinha no escuro da gruta,
A poderosa Medusa
Dos cabelos de serpente se encolhe.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
O Tempo
(A persistência das horas - Salvador Dalí)
O tempo é como um moinho de cana:
Primeiro, ele mói a cana e gera a garapa,
Depois, ele ferve a garapa e gera açúcar,
Em seguida, ele derrete o açúcar e gera caramelo,
Finalmente, ele queima o caramelo e gera carvão.
...
Em que tempo você está?
...
Se continuar, o carvão gera a terra,
E a terra gera a cana.
...
Tome tempo, pome tempo, tempo mote, tempo pode...
sábado, 31 de julho de 2010
Relatório nº 2: da Normalidade

A vida nas águas nunca foi fácil, Senhor. Quando princesa, eu possuía obrigações sem-fim. Invejava as princesas da terra e dos ventos. Correndo pelos bosques, colhendo flores do campo, brincando no ar. E eu lá, submersa em preocupações. Por isso, cresci me achando tão diferente. Poderosa... mas insegura, sensível, possessiva. E quando tornei-me rainha (da minha vida, do meu destino) tudo ficou mais difícil. Sempre desejei ser como as outras rainhas, que além de serem muito mais majestosas do que eu, encontravam príncipes, faziam planos e enfim gozavam de uma vida normal.
Mas qual não foi a minha surpresa ao, num encontro casual, conversar com as rainhas da terra e dos ventos. Ao partilharem suas histórias acabei descobrindo o quanto temos em comum, Senhor. Primeiro que, apesar de suas vidas terem sido aparentemente perfeitas, isso não nos privou de termos as mesmas experiências. E como resultado, termos os mesmo medos, as mesmas inseguranças, as mesmas opiniões e até as mesmas reações diante dos fatos. Segundo que, se normal é definido pelo habitual, natural e comum, sim (e assim), eu o sou!
Até agora, não sei se isso me faz melhor ou pior. Mas me sinto bem ao ver que não sou a única. Daí, o Senhor pode até me perguntar: “e se elas também não forem normais?” Então todos somos todas loucas... e felizes.
"Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez.“[Caio Fernando Abreu]
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Se eu pudesse...
Se eu pudesse,
Me uniria novamente a ti.
Carne com carne,
Nos fundiríamos.
Nos tornaríamos como um.
Um ser bizarro
De um só corpo
E quatro pernas e quatro braços.
E seríamos como antes
De Apolo ter nos separado.
Se eu pudesse,
Evitaria todo sofrimento teu.
Pisaria os espinhos
Destinados aos pés teus
Enquanto pisarias sobre os meus.
Sangraria cada gota de teu sangue,
E choraria cada lágrima tua.
Penaria cada dor,
Ouviria todo sermão
Que a Parca para ti escolheu.
Se eu pudesse,
Todo teu seria o meu conhecimento.
Faria tua a minha alma,
Teu o meu hálito,
E também o meu engenho.
Teus seriam os meus dons
E todos teus seriam os meus gozos.
Não irias mais trabalhar ou estudar,
Não dispenderias mais esforços,
Pois para ti tudo tão fácil viria.
Se eu pudesse,
Ah, se eu pudesse!
Me ausentar de ti nunca mais,
Mas viver contigo a ida inteira.
Mas se não passo
De apenas um humano,
Que posso oferecer de mais valioso,
Que não essa vida e minha presteza?
Essa vida, esses olhos, essas veias,
Essa respiração, esse sangue
Que só por ti vagueia.
Marcadores:
amor,
desejo,
sentimentos
sábado, 24 de julho de 2010
O peso da gratidão
E Deus deu uma graça a todos os seres humanos.
A eles foi dada a capacidade de fazer qualquer coisa, qualquer escolha: o livre-arbítrio.
E eles escolheram não agradecer uns aos outros.
Eu estava andando pelo mundo e observando conforme me havia ordenado o Criador, então percebi uma característica muito comum nos seres humanos. Percebi que era muito difícil para várias pessoas devolver ou mesmo reconhecer ações benéficas que lhes haviam sido concedidas. Entendi que a gratidão não era uma característica muito desenvolvida entre os humanos e iria escrever um relatório sobre isso, mas já encontrei outro texto (na verdade, uma música) muito adequado. Espero que o Senhor goste:
"Geni e o Zepelim
(Chico Buarque)
A eles foi dada a capacidade de fazer qualquer coisa, qualquer escolha: o livre-arbítrio.
E eles escolheram não agradecer uns aos outros.
Eu estava andando pelo mundo e observando conforme me havia ordenado o Criador, então percebi uma característica muito comum nos seres humanos. Percebi que era muito difícil para várias pessoas devolver ou mesmo reconhecer ações benéficas que lhes haviam sido concedidas. Entendi que a gratidão não era uma característica muito desenvolvida entre os humanos e iria escrever um relatório sobre isso, mas já encontrei outro texto (na verdade, uma música) muito adequado. Espero que o Senhor goste:
"Geni e o Zepelim
(Chico Buarque)
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "- Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir"
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "- Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir"
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela -
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela -
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"
Marcadores:
ingratidão,
música,
relatório
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Mal-entendidos
"Should I? Could I? Have said the wrong things right a thousand times (...)
You cried, I died. I should've shut my mouth, things headed south
As the words slipped off my tongue, they sounded dumb (...)
Misunderstood"
(Misunderstood - Bon Jovi)
Mais uma vez eu falei algo,
E mais uma vez eu fui mal interpretado.
Novamente você ficou com raiva de mim,
E outra vez fica ressentida. Desse jeito assim.
Às vezes fico em dúvida se a gente fala a mesma língua.
Um tipo de convivência meio amiga, meio inimiga.
Só posso me perguntar se o que eu falo tem algum sentido.
Será que o que digo não pode ser entendido?
Você mal chegou e já te fiz sofrer.
Já que você está assim e não tem muito que fazer,
Espero que me entenda e não me culpe.
E se for isso que você quer tanto ouvir: Me desculpe!
Só quero que as coisas não sejam sempre assim,
Cansado desse de novo, novamente de discussões sem fim.
Cansei de tudo, não quero mais brigar.
...
Por favor, me deixa só. Só quero pensar.sexta-feira, 16 de julho de 2010
Depoimento de uma Jardineira (ou História de um Jardim)
(Inferno - Hieronymus Bosch)
Transformei meu labirinto num deserto
Matando todas as flores de meu jardim.
Matei as flores morais,
As flores da pressa,
As flores do sonho,
E as flores da véspera...
Matei todas as plantas do meu jardim.
Matei todas as ervas que eu cultivava.
Matei essas pragas chamadas sentimento.
Matei de sede, sem regá-las.
Matei-as, sim...
Meu jardim estava todo seco e estéril
E eu estava em paz no meu solo sagrado.
Limpo, árido e tranqüilo.
Fiquei bem,
no meio do meu jardim.
no meio do meu jardim.
Mas aí chegou você, Jardineiro!
Que fez todas as plantas aparecerem novamente.
Que semeou indiscriminadamente.
E cuidou de cada semente.
E regou com todo cuidado, displicente!
Você fez de meu refúgio um lugar bom outra vez:
Verde, lindo e vivo.
Onde brota toda sorte de vegetais.
Onde se aspiram aromas florais.
Onde agora acampam animais.
Meu jardim nunca esteve... tão bonito...
Então, Jardineiro, é assim?!
Você vem e bagunça todo o meu jardim?
[Jardim da Delícias Terrenas - Parte central do tríptico "Jardim da Delícias Terrenas" (Interior) - Hieronymus Bosch]
Marcadores:
desabafo,
jardim,
paz,
sofrimento,
solidão
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Por que escrever?
- Por que ele escreve?
- Porque, ao escrever, ele se distancia da morte e do medo que ela causa,
Ignora ou visceraliza suas limitações e temporalidade,
Revive ou esquece e memórias,
Visita ou abandona lugares.
E mesmo que isso tudo tenha sido intangível,
Em algum lugar definitivamente aconteceu!
- Porque, ao escrever, ele se distancia da morte e do medo que ela causa,
Ignora ou visceraliza suas limitações e temporalidade,
Revive ou esquece e memórias,
Visita ou abandona lugares.
E mesmo que isso tudo tenha sido intangível,
Em algum lugar definitivamente aconteceu!
domingo, 4 de julho de 2010
Rememorar
"Se chove lá fora,
queima aqui dentro.
(...)
Quando chove,
fica mais triste esperar
por alguém que não vai chegar."
(Quando chove - Patrícia Marx)
Ele correu pelo labirinto
Buscando algo indefinido
Nem ele sabia bem o que era
Seguiu buscando o cheiro dela
Após cada curva, direita esquerda
O medo de perdê-la da cabeça
Buscá-la a todo e cada instante
Correr por mais que estivesse distante
Mas sabia que ao final não viria prêmio
Ainda assim, a dor seria seu maior alento
Valia a pena isso se era a única forma de revê-la
Já que em vida já não era mais possível mantê-la
Ao final do labirinto: Perigo!
Lhe esperava um punhal, aflito
Mesmo assim não pensou
Contra ele se lançou
A dor lancinante de perde-la outra vez
Mas esta era a única forma de a manter
Se a forma de, no coração, ela viva ficar
Por essa mesma dor, iria vezes passar
Outra vez a mesma dor de relembrar...
Marcadores:
lembranças,
memórias,
saudade
sábado, 3 de julho de 2010
Essência
(Lírios - Van Gogh)
Ela estava sentada naqueles bancos mais altos do ônibus e nem o viu chegar. Não viu quando ele se sentou logo à sua frente. Nem percebeu quando ele colocou sua mochila no lugar vazio ao seu lado e abriu a janela, mesmo chuviscando lá fora."É como um cheiro de saudade,
que na verdade nunca vai sair de mim.
Anda comigo desde o tempo de menino,
Acompanha o meu destino.
Me faz tão feliz assim."
(Cheiro de nós - Santanna)
Não viu nada disso, mas percebeu a sua presença quando o cheiro de folhas frescas dele encheu o ar à sua volta com a abertura da janela. Só nessa hora ela abriu os olhos. Viu o pedaço das costas dele que o banco do ônibus não impedia a visão e a parte de trás de seu cabelo. Viu que ele usava um casaco preto e, embora fosse inverno, nem estava tão frio assim. Imaginou que ele fosse friorento. Viu na base do dedo anular direito dele uma marca de bronzeado de anel. Imaginou que tivesse sido noivo por um bom tempo, mas teria acabado há pouco sua relação. Fechou os olhos e sentiu o perfume e tentou lembrar a que esse perfume recendia.
Era cheiro de calor. Também era o cheiro do som. E de luz. E de risadas.
Imaginou como ele era e nesse momento decidiu verificar. Tocou-lhe o ombro e quando ele se virou, ela o puxou para o lugar a seu lado no banco. Antes que ele falasse, ela o aproximou e o beijou na boca, abrindo os lábios dele com a sua língua. E deixou que ele fizesse o resto.
Ele a beijou de volta e subiu com sua boca em direção à orelha dela. Lambeu-a e a explorou e, entre gemidos, desceu pelo pescoço dela em direção aos seios, ao mesmo tempo em que lhe desabotoava a camisa. Lambeu-lhe os mamilos e continuou a recuar em direção ao baixo ventre, enquanto abria o zíper da calça dela. Ela continuava de olhos sôfregos fechados, arfando, até que ele enfiou o nariz ente suas pernas.
...
Ela sentiu um toque no ombro e quando olhou para o lado, uma moça jovem olhava para ela constrangida e perguntava se aquele lugar ao seu lado estava vazio e se podia sentar nele.
Só então percebeu que estava mordendo os lábios enquanto prendia as mãos entre as coxas.
Balbuciou um rápido claro, claro, já vou descer de qualquer forma. Puxou a cordinha do ônibus e olhou mais uma vez para o rapaz à sua frente e imaginou se deveria falar com ele.
Desistiu. Deixou estar.
Deixou que tudo aquilo permanecesse numa existência aérea, meio sublimada. Um pouco esparsa e um pouco nítida. Algo assim como aquilo que trouxera ele para ela. Algo como uma essência.
sábado, 19 de junho de 2010
O nascimento dos sete pecados (Parte III - Inveja, Ira e Preguiça)
(Wellington Virgolino - Inveja)
"A gente se deu tão bemQue o tempo sentiu invejaEle ficou zangado e decidiuQue era melhor ser mais velozE passar rápido pra mim"(Móveis Coloniais - O Tempo)
A Inveja nasceu cega. Nasceu cega e assim ficou por apenas um segundo, talvez menos. E logo em seguida abriu seus olhos. Todos eles. Os milhões de olhos que lhe cobriam o corpo. E, com esses milhões de olhos, ela conseguiu enxergar a todos, menos a si própria. Viu o brilho amarelo da luz em tudo, que a luz brilhava em todos, menos em si. Viu os defeitos de todos e não vendo os seus próprios achou que não os tinha e os desejou para si. Viu cada uma das qualidades de cada um e se supondo deficitária de todos esses, desejou-os todos também. Mas desejar só não era o suficiente. Deveria ter tudo, mas com a condição sine qua non de que esse tudo fosse somente dela, de mais ninguém. Mas não apenas tudo fosse dela, deveria esse tudo também ter sido antes de alguém. Tomaria-o e ele teria mais valor porque seria tomado. Tomado pelas suas garras sedentas do alheio. TOMARIA TUDO. Poder, dinheiro, saúde, fama, beleza, paz, amigos, parentes, amores, fé, vida. E o que não pudesse ser roubado seria destruído. Se possível, antes tudo seria seu. Mas tudo o que não poderia ser seu, não seria de mais ninguém. E gerou a Ira.
(Wellington Virgolino - Ira)
"Vinha nego humilhado, vinha morto-vivo, vinha flageladoDe tudo que é lado vinha um bom motivo pra te esfolar
Quanto mais tu corria mais tu ficava, mais atolava
Mais te sujava, amor, tu fedia, empesteava o ar
Tu que foi tão valente chorou pra gente, pediu piedade
E, olha que maldade, me deu vontade de gargalhar
Ao pé da ribanceira acabou-se a liça e escarrei-te inteira
A tua carniça e tinha justiça nesse escarrar
Te rasgamo a carcaça, descendo a ripa, viramo as tripas
Comendo os ovos, ai, e aquele povo pôs-se a cantar"
(Chico Buarque - Não sonho mais)
A Ira veio à existência com cem braços. Veio com cinquenta pernas. Veio com vinte línguas. E veio sem tolerância. Sem nenhuma paciência. Tudo lhe era irritável. Tudo insuportável. Tudo devia ser DESTRUÍDO. E todas as coisas eram tão sensíveis ao seu poder de obliteração que também isso a irritava e lhe fazia anelar mais a completa aniquilação de todas essas coisas. Tudo isso ela percebia só pelo seu toque porque ela também veio cega e surda. Imersa no seu interminável negrume, sem enxergar nem ouvir, não conseguia perceber quando algo acabava e ela continuava sua dizimação no que vinha subsequentemente, sem nem mesmo perceber que já estava lidando com coisas distintas. Seu toque incendiava, partia, quebrava, rasgava, esquartejava, apodrecia, difamava, afundava, apagava, ruía e matava. A destruição era continuada, sem intervalos. Uma coisa, após a outra, e outra, e outra. E ainda não fatigava, mas pariu a Preguiça.
(Wellington Virgolino - Preguiça)
"Com meus pés, não vou
Venha me buscar
Mas só vou de colo
Pra não me cansar
O meu passo faz caminho
Mas se alguém não se agradou
Pra mudar vai dar trabalho
Com meus pés, não vou"
(Beth Carvalho - Salve a preguiça de meu pai)
A Preguiça não veio. Ficou deitada. Sempre deitada. Quando muito sentada. Recostada no encosto da cadeira, e já era esforço demais ficar assim. Mas em pé, jamais. Era enorme e não tinha energia nenhuma. Nunca se deslocava e preferiria morrer a ter que fazer algo. Toda aquela dificuldade para se por em movimento. Viva a lei da Inércia! Só no caso do corpo parado, que fique bem claro. Nada de continuar em movimento. Já lhe era grande custo mesmo pedir para alguém lhe trazer algo. Diferente de todos os demais, ela não queria algo. Já estava satisfeita. Plenamente satisfeita. Era só não se mexer mais, NUNCA mais. Mas não sorria feliz porque isso também era desgastante. Talvez se não fosse ela nessa linhagem, a sequência tivesse continuado, mas com a Preguiça, os pecados acabaram em sete mesmo. Ela também preferiria morrer a ter o esforço de gerar algo.
Marcadores:
inveja,
ira,
os 7 pecados,
preguiça
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Desculpe-me a Sinceridade

Falo ainda o que penso, não tanto o que sinto (embora sinta o que pense e pense no que sinta). Sei que a minha sinceridade às vezes dói, corta, machuca. Afinal, nós não lidamos bem com a 'verdade' esfregada na nossa cara, não é? Não admitimos que alguém saiba mais de nós do que nós mesmos. E quem sou eu para sair por aí dizendo o que você é ou não é? Mas não me interprete mal, baby. Não julgo fazer comentários desnecessários. Falo para o seu bem. Porque eu te quero bem. E mesmo que você fique mal (e que eu também fique mal quando assim reajas), não falo em vão. Quero ver você melhor. Quero ver você mais forte, garoto. E não creio que o que eu te falo esteja assim, de todo, cor-re-to. Não está. Eu só quero te mostrar o outro lado, entende? Eu quero te provar que existe muito mais do que o que você já viveu. Você é novo ainda. Novo de idade, novo de experiências, novo de vida. Ainda vai viver muito, ah se vai... E vai passar por muita coisa. Mas você não precisa sofrer tudo que eu sofri para aprender, não é? Estou te dando o caminho mais fácil menino: aprenda com alguém que já viveu. Assim como eu aprendo com você, a cada dia. E não é isso que nos torna tão próximos? As nossas diferenças? Quem sabe um dia então, um aprendendo com os erros do outro, poderemos nos tornar pessoas... nem melhores, nem piores, só pessoas... mais... completas?
Mas, em todo caso, desculpe-me a sinceridade.
Marcadores:
desculpas,
eu falo demais,
sinceridade
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Boletim n° 001
“E o Príncipe, respondeu: Senhor, imploro teu perdão, mas não era capaz de me comunicar contigo. Fomos todos apanhados por uma tempestade (chamada por ti de “disciplina”) durante nossas excursões pelo mundo, quando estávamos todos próximos. Soube de imediato que eram teus servos observadores, embora o Senhor não os tenha me apresentado. Vi alguém cuja expressão parecia carregar a experiência de mil vidas e a vivência de mil anos. Sua sabedoria parecia guiá-lo no meio do tempo torrencial como se fosse mero chuvisco e ele foi o primeiro a sair do temporal e te encaminhar uma missiva. Vi ainda uma mulher que caminhava sobre as águas e de seus olhos jorravam fontes de dor, tristezas, memórias e alegria. Ela parecia habituada às águas, não importando quanto agressivas elas fossem. Domou a área de intempérie que a envolvia e foi a segunda a escapar dessa e a lhe mandar a escrita solicitada. Finalmente, observei uma outra mulher vestida com uma armadura que brilhava como a luz do dia. Ela tinha o rosto que lembrava uma criança, mas seus gestos eram decididos e percebi que a teimosia era uma espécie de talento seu. Andava ereta na direção contra o vento e este não parecia conseguir fustigá-la. Sua força de vontade era maior que a violência do tempo e ela parece ter saído do mau tempo, mas não sei se se perdeu no caminho, porque ela se distrai facilmente e esquece o que estava fazendo. Mas tenho certeza de que com sua constituição, ela está bem. E quanto a mim, Senhor, como bem sabes sou fraco e não possuo grandes dons. Só posso observar. Encontrei abrigo e esperei a tempestade passar. Passei meu tempo escrevendo. Lembrando o que havia visto, ouvido e sentido. Esse é o meu dever. Esse é o meu talento. Reviver o que já foi vivido, sentido e destrinchar cada fragmento de emoção sentida e a razão de todas as coisas. O que sei fazer é pensar. Tenho medo de me lançar em novas experiências amedrontadoras, não guardo muito bem o passado e também não resisto muito bem às coisas. Mas posso pensar... Os relatórios serão normalizados a partir de agora!”.
Marcadores:
desculpas,
resposta a ausência
terça-feira, 8 de junho de 2010
Carta aberta
Aos meus amados observadores.
Há algum tempo não recebo meus relatórios semanais. Como sei de tudo, percebo que um, ou mais, dos sete pecados pode(m) estar atrapalhando vocês.
Me disseram que vocês estiveram imersos em uma disciplina tal como um inseto hematófago, mas também fiquei sabendo que já se livraram da "maledita" tem aproximadamente 1 mês.
Então meus caros observadores, onde estão os relatórios?
Se por acaso dentro de suas cacholas ainda permanecem, prestem o serviço a que se comprometeram e os coloquem para fora.
Não há o que temer. Temos bons momentos pela frente - Copa do Mundo; PIB em alta; Eleições; Etc - Nestes momentos tudo costuma ser feliz, animador e/ou promissor.
Portanto, principalmente quando felizes estiverdes, não se esqueçam do compromisso assumido, pois mais livres estarão para esmiuçar os acontecimentos de vosso planeta.
Com o carinho e amor do Pai!
Há algum tempo não recebo meus relatórios semanais. Como sei de tudo, percebo que um, ou mais, dos sete pecados pode(m) estar atrapalhando vocês.
Me disseram que vocês estiveram imersos em uma disciplina tal como um inseto hematófago, mas também fiquei sabendo que já se livraram da "maledita" tem aproximadamente 1 mês.
Então meus caros observadores, onde estão os relatórios?
Se por acaso dentro de suas cacholas ainda permanecem, prestem o serviço a que se comprometeram e os coloquem para fora.
Não há o que temer. Temos bons momentos pela frente - Copa do Mundo; PIB em alta; Eleições; Etc - Nestes momentos tudo costuma ser feliz, animador e/ou promissor.
Portanto, principalmente quando felizes estiverdes, não se esqueçam do compromisso assumido, pois mais livres estarão para esmiuçar os acontecimentos de vosso planeta.
Com o carinho e amor do Pai!
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Negro
De volta. Clack! Mais uma vez. Quero aproveitar cada segudinho desse momento para te dizer o quão fraca você é. O muito penar que você tem pela frente. Desculpe-me, eu sei que não era isso que eu te dizia há algum tempo, mas também nunca ouvi de ti aquilo que eu tanto anseio desde aquele fatídico dezembro de 2008. De lá até aqui se passaram 16 meses e 13 dias, dos quais dediquei alguns para você.
E mais uma vez em vão! Não adianta me olhar no espelho, dizer pra mim mesmo que tudo o que passou serve como experiência, aprendizado. Não adianta porque dói. Dói demais e, nessas horas, me arrependo de dizer que prefiro algo ruim porque me dá uma sacudida. Não quero ser sacudido dessa forma. Não quero essas borboletas no meu estômago. Eu queria apenas você. De fato, não do jeito que você é. És tão pouquinho para mim.
Já tive quase tudo aos meus pés e de ti tive apenas os teus pés. Todos viam em meu rosto um raio de Sol querendo sair e iluminar a minha vida e graças a Deus que era isso que eles viam, pois a única coisa que eu enxergava eram teus pés. Cada medíocre dia de minha vida seguia lambendo o chão onde pisavas, catando as sobras, poucas por sinal, que para mim deixavas. Não consigo te desejar bem agora já que minha vida se tornou mais um eclipse.
E eles, ah eles já não vêem mais raios de Sol. Pelo contrário, estou negro. E Deus sabe o tanto que eu queria que isso fosse apenas um tom de pele meu.
E mais uma vez em vão! Não adianta me olhar no espelho, dizer pra mim mesmo que tudo o que passou serve como experiência, aprendizado. Não adianta porque dói. Dói demais e, nessas horas, me arrependo de dizer que prefiro algo ruim porque me dá uma sacudida. Não quero ser sacudido dessa forma. Não quero essas borboletas no meu estômago. Eu queria apenas você. De fato, não do jeito que você é. És tão pouquinho para mim.
Já tive quase tudo aos meus pés e de ti tive apenas os teus pés. Todos viam em meu rosto um raio de Sol querendo sair e iluminar a minha vida e graças a Deus que era isso que eles viam, pois a única coisa que eu enxergava eram teus pés. Cada medíocre dia de minha vida seguia lambendo o chão onde pisavas, catando as sobras, poucas por sinal, que para mim deixavas. Não consigo te desejar bem agora já que minha vida se tornou mais um eclipse.
E eles, ah eles já não vêem mais raios de Sol. Pelo contrário, estou negro. E Deus sabe o tanto que eu queria que isso fosse apenas um tom de pele meu.
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)





