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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A triste pena de Calipso


(Ulisses e Calipso - Arnold Böcklin)


Corre, Calipso,
Que em tua ilha chegou outro visitante!
Mas lembra-te de tua pena que nunca mudará,
Também ele, em breve, será uma paixão distante.

Cuida, Calipso,
Dele com todo teu cuidado.
Oferece-lhe tudo, até a imortalidade.
E novamente serás passado abandonado.

Ama, Calipso.
Olha como ele é tudo que esperaste.
A resposta para teus momentos de solidão,
Tanto tempo sozinha... quanto desgaste!

Pede, Calipso.
Implora-lhe que permaneça.
Que olvide todo o resto de sua vida,
De sua família e passado se esqueça.

Deixa, Calipso...
Ele não ficará como nenhum outro ficou.
Tantos passaram e nenhum permanece,
Que ao menos diga: “Em paz me vou!”

Acena, Calipso.
Despede-te de mais um que se vai.
Abençoa-o para que em seu destino chegue,
Que ao menos ele tenha o que não tens: Paz.

Sofre, Calipso!
Senta, pena e chora...
Diferente de qualquer mortal em teus barcos,
Parece que nenhuma das três Parcas te adora.

sábado, 21 de agosto de 2010

O ressurgir da Fênix


(Dragão e Fênix - Jun Lin)


Tu estavas morta, não estavas?
Tinha certeza porque assim te vi!
Como podes retornar à vida?
Ai de mim, que perto te quis...

Lembro que em fogo
Te havias afogado.
E agora assim levantas,
Como despertando de sono pacato.

Fênix, sacode as penas e olha para a luz,
Tudo te saúda com um bom dia!
Canta para encher o ar de leveza,
Traze de volta toda a alegria!

As chamas que fizeram de ti cinzas
Parecem que foram apenas ilusão.
Do ovo do ninho carbonizado
Surgiu nova vida, então?

Mas surgiu realmente nova vida?
Ou será apenas repetição da anterior?
Liberdade do passado perdido
Ou manutenção no mesmo estupor?

Não sei as respostas.
Apenas te espero, nova Fênix.
Aguardo debruçado na janela
Teu vôo e canto, que de êxtase me enches.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Se eu pudesse...


Se eu pudesse,
Me uniria novamente a ti.
Carne com carne,
Nos fundiríamos.
Nos tornaríamos como um.
Um ser bizarro
De um só corpo
E quatro pernas e quatro braços.
E seríamos como antes
De Apolo ter nos separado.

Se eu pudesse,
Evitaria todo sofrimento teu.
Pisaria os espinhos
Destinados aos pés teus
Enquanto pisarias sobre os meus.
Sangraria cada gota de teu sangue,
E choraria cada lágrima tua.
Penaria cada dor,
Ouviria todo sermão
Que a Parca para ti escolheu.

Se eu pudesse,
Todo teu seria o meu conhecimento.
Faria tua a minha alma,
Teu o meu hálito,
E também o meu engenho.
Teus seriam os meus dons
E todos teus seriam os meus gozos.
Não irias mais trabalhar ou estudar,
Não dispenderias mais esforços,
Pois para ti tudo tão fácil viria.

Se eu pudesse,
Ah, se eu pudesse!
Me ausentar de ti nunca mais,
Mas viver contigo a ida inteira.
Mas se não passo
De apenas um humano,
Que posso oferecer de mais valioso,
Que não essa vida e minha presteza?
Essa vida, esses olhos, essas veias,
Essa respiração, esse sangue
Que só por ti vagueia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O rumo




Havia um menina. Uma menina e um objetivo. Construir um muro.
Desde quando, não lembrava. Sabia somente que era a sua meta. O muro.
Dia após dia, ia colocando tijolo por tijolo. O cimento também ela preparava. Com água, com suor, com lágrimas, por vezes. E o muro ia crescendo.
Vez em quando chovia e ela parava a construção. Cobria o muro em crescimento com uma grande lona, tentando protegê-lo da intempérie. Então esperava pacientemente o sol sair, secar o tempo. Por vezes, o chão tremia e parecia que tudo ia desabar. Ela chorava e rezava para que o muro agüentasse a instabilidade. E mesmo assim, o muro ia crescendo.
Chegou a época que de tão grande que ficara, precisou de uma escada. E o trabalho aumentou. Sozinha, subia e descia carregando os tijolos para cada vez mais alto. As pessoas nem a viam mais. A menina escondia-se atrás da sua obra. Mas isso não importava. Ela apenas queria poder dizer para o mundo inteiro que havia construído o maior, o mais belo, o mais forte muro que já se havia construído.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Observação Vídeo-Poética - AI SE SÊSSE




Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

Poema de Zé da Luz
Interpretação do Cordel do Fogo Encantado

Ai se sêsse...