"...DECISÃO.
9. Isto posto, por força de deliberação proferida pelo Conselho de Sentença que JULGOU PROCEDENTE a acusação formulada na pronúncia contra os réus ALEXANDRE ALVES NARDONI e ANNA CAROLINA TROTTA PEIXOTO JATOBÁ, ambos qualificados nos autos, condeno-os às seguintes penas:..."
Foram essas algumas das palavras ditas pelo Juiz de Direito Maurício Fossen no julgamento mais esperado dos últimos anos.
Do lado de fora do fórum, quase 3 minutos de fogos de artifício. Uma mobilização popular enorme, comemoração. Sede de justiça ou vingança? Alguns falando em morte ao casal. Sério? Será que fazendo isso, não estaríamos nos igualando aos réus?
Há muito tempo se tem confundido justiça com vingança. Vou confessar uma coisa: Por alguns momentos, passou pela minha cabeça a possibilidade deles serem inocentes. Tudo bem, eu sei que tudo leva a crer que eles são os assasinos. Mas se, como naqueles filmes espetaculares ou um episódio de Cold Case, o que parece ser não for verdade, tiver acontecendo agora?
Sinceramente? Não quero pensar nesta possibilidade e também concordo que eles sejam culpados. Só não sinto esse ódio que as pessoas fazem questão de proclamar aos 4 ventos. A justiça sempre é feita, seja a nossa ou a divina (esta com certeza).
Claro que é bem mais fácil falar na posição que me encontro, não tenho parentesco, não foi minha filha e talvez até agisse da mesma maneira. Mas, vendo de um ângulo diferente, menos emotivo, continuo enxergando a dor, o ódio, a vingança e, o que eu acho mais estranho e ao mesmo tempo penoso é que os milhares que queriam e querem a morte do casal, na verdade desejam se livrar de suas próprias perdas, dores e remorsos.
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sábado, 27 de março de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Não precisa dizer mais nada
(Mulher chorando - Pablo Picasso)
- Vamos conversar?
- Desculpa, mas estou com pressa.
- Vai à algum lugar?
- Não sei. Queria ir pra longe.
- Oi?
- Nada.
Não dava para se afastar. Não dava para ser rude com ele. Pelo menos não propositalmente. Mas era curioso como gostava tanto dele e às vezes sentia prazer em pisá-lo, sempre sem premeditação. Às vezes fazia questão de desmenti-lo ou de mostrar seus erros na frente dos outros, mas nunca planejando isso antes. Não sabia se essa reação era para chamar a atenção dele ou se era uma espécie de vingança que a fazia se sentir melhor já que ele não a tinha escolhido.
- Sobre o quê?
- Sobre o que o quê?
- Sobre o quê quer conversar?
- Ah...
Seja qual fosse o escopo de conversa, realmente não tinha o menor interesse. Ia lhe dizer “Eu te amo”? Aí sim, iam ter motivo para conversar. Mas sabia que não era isso, então era melhor ele ir logo embora.
- Você parece estar chateada comigo.
- Né nada não, nem se estressa com isso. O problema é comigo.
Na verdade, ela pensava “O problema é com você, sim, mas é comigo... Sei lá”.
- Você saiu meio corrida ontem.
- Foi. Você percebeu?
- ... É verdade que você gosta de mim?
Tum-tum-tum-tum-tum.
- Bem, sim.
- Ah, desculpa, mas...
- Não precisa se desculpar. Não se desculpe por ter namorada e se for porque você acha que me feriu porque estava falando dela e tudo mais, esquece.
- Mas eu não queria...
- Olha só, eu ouvi você falando o quanto gostava dela e que tudo que você podia fazer, que estava ao seu alcance, você fazia para vê-la feliz. Você está certo. E acho que não preciso de desculpas. E não precisa dizer mais nada.
- Hum...
Depois desse “Hum...” dele, ela foi embora. Primeiro devagarzinho e depois cada vez mais rápido. Correndo para longe dele. Lágrimas lhe escorriam dos olhos embaçando a visão, mas era o coração que se derramava. Se derramava em dor, vergonha e raiva. Apenas um “Hum...” depois de tudo aquilo? Ele que sabia de suas dores agora deveria ter lhe dito algo. Deveria ter lhe abraçado. Deveria ter lhe dito que abandonaria a outra para ficar com ela. Que agora que sabia de sua condição, a outra já não mais lhe importava. Sabia que tinha dito que não precisava dizer mais nada, mas ele deveria saber que não era o que ela queria dizer. Mas ele não fez nada do que deveria fazer, não disse nada do que deveria dizer. E por isso mesmo, já não havia mais nada a ser dito.
"Meu coração tá batendo como quem diz não tem jeito. Zabumba-bumba esquisito, batendo dentro do peito.
Teu coração tá batendo como quem diz não tem jeito.
O coração dos aflitos pipoca dentro do peito.
Coração bobo, coração bola, coração balão, coração São João...
A gente se ilude dizendo: já não há mais coração."
(Coração bobo – Alceu Valença)
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